sábado, 9 de abril de 2016

Watchers

Sou como um monolito
que mesmo 
tempos bons e ruins recaim sobre mim
apenas minha superfície desgasta

a estrutura permanece
e assim será
contemplando sempre o horizonte fraturado
e deixando verter
tempestastes de lágrimas
por ver mais 
e além do que muito olhos cegos enxergam
mas sempre num 
silêncio pétro.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

A morte absoluta (Manuel Bandeira)














Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Num mundo de pessoas rasas, aprofundar-se é insanidade

Com o tempo nós vamos percebendo que nos pequenos detalhes estão as singularidades de cada pessoa com quem nós nos relacionamos na vida. Algumas pessoas passam, outras ficam. Algumas pessoas somam, outras somem. Muitas delas deixam um pouco de si, mas sempre levam um pouco de nós com elas também. Algumas dessas pessoas simplesmente não conseguem sentir a menor preocupação pelo outro e não sentem o mínimo de remorso por isso.

Egoísmo eu diria, mas eles preferem chamar de liberdade. Essas pessoas pouco sabem sobre o amor e sabem muito bem brincar com o coração alheio sem dor ou culpa. Apatia eu diria, eles preferem chamar de amor-próprio.

Quando passamos muito tempo num longo e doloroso hiato, a recuperar das dores provocadas por um corte profundo ou quando temos uma faca no peito cravada por alguém que julgámos ingenuamente um dia ter algum sentimento verdadeiro quando na verdade era apenas uma pessoa incapaz de se colocar no lugar do outro ou sentir o mínimo de empatia, fica cada vez mais difícil entregar-se a uma nova relação, pois começamos a conhecer a pior parte do ser humano e as suas peculiaridades.

Algumas pessoas são completamente indiferentes e, mesmo quando dizem que preferem a sorte e segurança de um amor tranquilo, na verdade não percebem quando ele chega, nem mesmo quando está bem à frente do seu nariz, abrindo-lhes um sorriso largo e convidando-as para viver, para serem felizes! Então porque tanta gente se nega a sentir? Simplesmente pelo facto de que é muito mais fácil viver na incerteza. Será que aquela pessoa gosta mesmo de mim?

  

A incerteza é que os motiva a buscar sempre o mais difícil, aquele que não se importa. É como um desafio e todo mundo gosta de um bom desafio. Quando encontram alguém que é tudo aquilo que elas pedem nos seus sonhos, o que elas fazem? Simplesmente não acreditam e fogem por achar que é impossível existir alguém assim, que se entrega completamente àquilo que acredita, então não aceitam o amor simplesmente por acreditar que não o merecem.

A verdade é que ninguém surge na nossa vida por acaso, se essa pessoa apareceu na tua vida, porque é que tu serias menos merecedor de viver isso plenamente? Aceita esse sentimento que tu achas que não mereces para poderes viver aquilo que tu mereces viver. Até Alice se atirou e no mínimo viveu uma aventura digna de uma boa história, que foi contada por gerações e gerações. Porque é que contigo seria diferente? Larga o medo, segue o coelho e joga-te no escuro. Ele pode ser o teu melhor caminho (ou não).

Se for um erro, transforma aquilo que aprendeste nos teus melhores acertos e cria a tua própria história, ela pode não ter glória, mas terá emoção! Ninguém vai adivinhar o teu pensamento e nessa falta de interesse tu podes acabar por perder alguém de valor, não esperes o outro desistir de tentar para perceberes isso. Então, não deixes passar quem se preocupa contigo e não dorme enquanto não te deseja boa noite, pelo simples facto de que sim, essa pessoa gosta de ti e não tem medo ou vergonha de demonstrar isso.

Num mundo de pessoas rasas, querer aprofundar-se em qualquer tipo de relação é insanidade mental, quase um crime! Invejo as pessoas que conseguem ser imunes à gentileza alheia, pois elas passarão sem nenhum arranhão pela vida. Eu que sou puro coração, passarei com feridas profundas e carregando um coração na mão, dando amor a quem quiser receber, porque é tanto sentimento que transborda em mim que me recuso a vivê-lo pela metade, sem me afogar na imensidão do outro.

Texto: Carla Moura

sábado, 28 de novembro de 2015

Where the pain starts



"A mente retém as recordações
dolorosas por uma razão:
Para que não voltemos a cometer
os mesmos erros.
Dizem que se regressar de onde
começou essa lembrança
e observar o local...
...pode se libertar da dor
e esquecer."

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O Andarilho

“Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. 
Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem. 
Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. 
Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. 




Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. 
Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. 
Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.”

~ Friedrich Nietzsche, Aforismo 638 do capítulo “O Homem Sozinho Consigo Mesmo”, de “Humano, Demasiado Humano” (1878).


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

As janelas do amanhã



Eis que abro as janelas do amanhã
Meus olhos cansados fitam o futuro do meu ontem
A cíclica mesmice que de um mundo desprezível

Cortinas são balançadas com
Suaves e doces brisas melancólicas
E mostram lúgubres cenas
De uma realidade infeliz



Existem luzes no fim deste túnel
As mesmas que me impedem de ver o que há no final

Mas estas janelas do amanhã
Deveriam sempre permanecer fechadas
Não existe beleza próxima nem ao longe

12/11/2015

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Apenas um alcoólatra !!!






Apenas um alcoólatra* !!!

Eu sei que eu ando bebendo demais
acordo e todos os dias e eles são todos iguais
todas e pessoas que vejo são anormais e por isso 

que sou apenas um alcoólatra
que sou apenas um alcoólatra

  giro dentro do meu 
mundo girante
sempre me sentindo insignificante
pois nada mais vejo adiante

sou apenas um alcoólatra
apenas um alcoólatra

Me traem, me mentem e ferro e por isso sigo bebendo
Sozinho no copo menos eu me entendo e por isso sigo bebendo

sou apenas um alcoólatra
apenas um alcoólatra

31-07-2015

*sutil homenagem a minha pessoa e ao grande Vander Vildner